Crítica da peça Senhora Solidão, texto e direção de Leandro Muniz

“Solidão é lava que cobre tudo
Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo
Solidão palavra cavada no coração
Resignado e mudo
No compasso da desilusão.”
A solidão, ao que tudo indica, parece ter se tornado um dos grandes
males dos tempos modernos. O tema aparece com certa recorrência em
músicas, livros e no cinema. A escola existencialista acredita que a
solidão faz parte da essência do ser humano. Cada pessoa vem ao mundo
sozinha, atravessa a vida como um ser em separado e, no final, morre
sozinho. Aceitar o fato, lidar com isso e aprender como direcionar
nossas próprias vidas de forma bela e satisfatória é a condição humana.
Alguns
filósofos, como Jean-Paul Sartre, acreditavam numa solidão epistêmica,
em que a solidão é parte fundamental da condição humana por causa do
paradoxo entre o desejo consciente do homem de encontrar um significado
dentro do isolamento e do vazio do universo. Entretanto, alguns
existencialistas pensam o oposto: os indivíduos precisariam se engajar
ativamente uns aos outros e formar o universo na medida em que se
comunicam e criam, e a solidão seria meramente o sentimento de estar
fora desse processo.
Em relação ao quadro descrito acima encontramos quatro personagens.
Mauro tem dificuldades de se aproximar de outras pessoas e abusa do
álcool para tentar se encaixar. Andressa é rejeitada pela família, tem
na figura de sua irmã a grande rival e imputa a esta a responsabilidade
por seus fracassos na vida. Júnior tem uma família atípica e cresceu
sendo vítima de atos de violências físicas e psicológicas, até mesmo
dentro de sua própria casa. Senhora sofreu uma grande desilusão amorosa
ao ser abandonada pelo marido. Em comum, essas quatro figuras sofrem do
mesmo mal: a solidão. E eles se encontram justamente na casa desta
última, onde uma espécie de terapia vai ocorrer. Esse “tratamento”
desenvolvido por Senhora goza de certa credibilidade e, por esse motivo,
Mauro, Júnior e Andressa vão ao seu encontro, para participarem da
reunião na qual vão discutir em conjunto o tema que os une. A anfitriã,
assim como os outros, é uma pessoa solitária que procura encontrar, no
contato com indivíduos que passam por situação semelhante, as respostas
para o seu problema. Juntos os quatro revisitam suas memórias e tentam
reconstruir momentos de suas vidas que não foram agradáveis. Na tal
terapia, Senhora incita os outros a revisitar momentos dolorosos e
estimula-os a modificar suas histórias por meio de jogos teatrais.
A trama acima é o ponto de partida do espetáculo
Senhora Solidão,
levada à cena pelas mãos da Quase Companhia e que cumpre sua primeira
temporada no Teatro Maria Clara Machado no Rio de Janeiro até o dia 9 de
outubro. O texto, escrito por Leandro Muniz – que também dirige a
montagem – pode nos levar a acreditar que a peça envereda pelo drama, um
daqueles bem carregado nas tintas e capaz de derrubar até o mais
insensível dos corações. Talvez grande parte dessa impressão se dê por
conta do cartaz do espetáculo, que não nos dá grandes pistas do que
vamos ver. Neste caso, aquele velho dito popular que diz: “não julgue o
conteúdo de um livro por sua capa” é bastante apropriado. Mistérios à
parte, o enigma vai se desfazendo após o início do espetáculo e em
poucos minutos somos abarcados por uma grata experiência teatral.
Leandro constrói um texto em que a tônica do espetáculo é a comédia,
embora as situações abordadas e reveladas no decorrer da apresentação
nos abram a possibilidade de inúmeras portas para a reflexão. Existe,
creio eu, uma certa aproximação das personagens criadas por Muniz com
pessoas do cotidiano e aí está a graça. Não são personagens
inverossímeis, as pessoas ali no palco poderiam muito bem ser um amigo,
um vizinho ou um parente.
A peça se divide em dois planos: O presente, ou plano da realidade,
no qual acontecem os fatos narrados durante o encontro de Andressa (Bia
Guedes), Júnior (Luis Lobianco) e Mauro (Claúdio Amado) com Senhora
(Cristina Fagundes) que faz as vezes de mediadora e propõe exercícios
aos outros participantes com a finalidade de que cada um ali se
apresente. O outro plano é o da memória, em que cada uma das personagens
apresenta um pouco da sua história pregressa. É neste plano, visível
apenas para o público, que ocorre uma espécie de metateatro, em que os
atores fazem diversos personagens cujas histórias acabam se
entrelaçando.
O espetáculo é definido por seu autor e diretor como uma comédia em
tons dramáticos (ou seria um drama em tons cômicos?). O fato é que
realmente há momentos cômicos que levam a plateia às risadas em
decorrência das situações apresentadas que beiram o nonsense e o Teatro
do Absurdo, mas há também momentos de dor, silêncio, desconforto e falta
de rumo para as figuras centrais que despertam uma angústia em que está
assistindo. Apesar do espetáculo se mostrar bastante convencional em
termos de dramatização, é possível perceber que a encenação se vale de
certos códigos e elementos de quebra das convenções. O exemplo mais
evidente disto é o caso das trocas de personagens entre os atores. Todos
em cena acabam respondendo, em algum momento da peça, por uma ou outra
personagem. Não se trata de um exercício de metalinguagem, em que os
atores assumem explicitamente a troca de personagens e que procuram
demonstrar ao público que são atores fazendo personagens. Em
Senhora Solidão,
isso não acontece. A alternância de personagens começa de modo tímido e
depois se torna frenética, mas em nenhum momento o ator se revela para o
público.
Outra boa solução cênica é que para viabilizar essa movimentação
entre os atores, o figurino permanece intocável. O que define uma
personagem ou outra é um objeto, que pode ser um par de óculos, um lenço
ou até mesmo um cabelo ajeitado de forma diferente. Estes são códigos
que se estabelecem rapidamente.
Em
Senhora Solidão, pode se perceber algumas referências
utilizadas por Leandro Muniz para a construção de seu espetáculo, tanto
em relação ao texto quanto à direção. Ainda que não tenham sido
utilizadas de forma intencional, é possível fazermos uma conexão entre
Senhora Solidão e os trabalhos do roteirista e escritor americano
Charlie Kaufman e os diretores Michel Gondry e Spike Jonze. Não é
possível afirmar com certeza que o autor e diretor se valeu destas
referências na feitura de sua peça, mas em determinados momentos é
possível observar zonas de contato com os filmes
Brilho eterno de uma mente sem lembrança (
Eternal Sunshine of the Spotless Mind) e
Quero ser John Malkovich (
Being John Malkovich).
Estes trabalhos se ocupam em retratar a realidade de forma inusitada.
Adicionaria também ao caldeirão referencial de Muniz o termo psicodrama.
O psicodrama – método de investigação e tratamento de problemas
psicológicos criado pelo médico romeno Jacob Levy Moreno no princípio do
século XX reúne em sua base teórica elementos do teatro e da
psiquiatria e tem como recurso de ação a dramatização –o principal fio
condutor da história da peça.
Outro ponto que podemos destacar é em relação às interpretações. Não
há ator ou atriz que se destaque individualmente. A força de encenação
fica por conta do agrupamento de um conjunto homogêneo e que corresponde
bem às diretrizes da encenação.
A conclusão a que se chega ao fim de
Senhora Solidão é de
que mesmo assuntos mais sérios e delicados que procuram tematizar a
condição do ser humano consigo mesmo e de sua relação com a sociedade
pode ser tratado de uma maneira leve e descontraída e que nem por isso
deixa de suscitar a reflexão.
Referência bibliográfica:
CARTER, Michele.
Abiding Loneliness: An Existencial Perspective. Park
Ridge Center, 2000. Em: http://www.philosophicalsociety.com/Archives/An
ExistentialViewOfLoneliness.htm. Acessado em: 24 de setembro de 2011.
Raphael Cassou é ator, iluminador e graduando em Teoria do Teatro
pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO.
extraído do site Questão de Crítica - ww.questaodecritica.com.br